Nádia e Ayrton (05/07/08)
Era a primeira semana de maio de 1994, precisamente o dia 4, uma quarta-feira. O corpo de Ayrton Senna era velado na Assembléia Legislativa de São Paulo, tendo recebido a presença de 250 mil pessoas. Nádia, uma jovem paulistana de 17 anos, estava acompanhada de sua mãe, que levou sua filha na intenção de confortá-la da tristeza de choros e lágrimas daquele difícil fim de semana da perda de seu ídolo.
Nádia era uma menina inteligente, madura, chamada "garota cabeça", tranqüila e precoce. De ídolos inusitados para uma adolescente de 17 anos na década de 90, gostava de Elis Regina, Maysa, Mutantes e Janis Joplin, entre outros gostos musicais diferenciados. No esporte, era uma fanática brazuca. Torcia, apenas, pra tudo que se referia a Brasil. E na Fórmula 1, o carisma e as vitórias de Senna certamente a deixavam orgulhosa de ser brasileira, apesar de seu nome ter sido dado, pela mãe, inspirado na musa e lenda romena da ginástica olímpica, Nadia Comaneci.
Mãe e filha estavam em imensa fila para prestar aquela última homenagem ao nosso piloto tricampeão. Nádia, impaciente e angustiada, perguntava e trocava informações com um guarda, que depois de alguns instantes ficou encantado com a gentileza, educação e também a beleza daquela morena de cabelos enrolados, que lembrava a Marisa Monte na fisionomia e em traços.
O guarda estava disposto a fazer a gentileza para que ela e a mãe saudassem Ayrton e chegasse perto do caixão, sem enfrentar a imensa fila que ainda tinham pela frente. Sinalizou, discretamente, para que Nádia saísse da fila e o acompanhasse para chegar próximo do corpo, sem a demora que enfrentaria. Ele ficou ainda mais sensibilizado com o carinho da mãe pela filha, que nem estava interessada em cortar a fila, mas sim que a filha pudesse ver o ídolo e amenizar aquela tristeza. Nádia, aos cochichos e discreta, insistia para que a mãe também saísse da fila e fosse junto, ao invés de ficar esperando Nádia do lado de fora como queria.
Nas proximidades de onde o corpo era velado, o guarda conduziu ambas para um acesso, onde discretamente elas caminharam e entraram onde estava o caixão, sem que ninguém percebesse que estavam cortando a fila, mas caminhando e seguindo junto a outras pessoas da própria fila. Nádia pode saudar pela última vez, e bem de perto, seu ídolo, vendo o caixão com uma réplica de seu capacete amarelo e a bandeira do Brasil.
Após 5 semanas, Nádia faleceu em um acidente de carro. Talvez tenha ficado mais perto ainda de Senna. Mas com toda certeza, ele ficaria honrado em saber que uma fã fez tantas ultrapassagens de uma vez só, naquela fila, para saudá-lo com tanto carinho.
Abraços a todos,
Guilherme Henrique Salviano
Guilherme Henrique Salviano, 30 anos, mora em São Paulo e é fã de automobilismo desde infância, graças aos duelos de Nelson Piquet e Carlos Reutman, colecionando fotos, artigos, acompanhando e admirando a história da Fórmula 1 e outras grandes competições do esporte. A coluna é publicada todo sábado nos fins de semana de corrida de Fórmula 1.
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