FÓRMULA 1 1984 - Toleman: Senna começa a encantar o mundo Seu primeiro contato com a F-1 aconteceu em 19 de julho de 1983. A convite pessoal de Frank Williams, Ayrton Senna testou o FW08C/ Ford DFV em Donington Park. Deu 82 voltas e foi mais rápido que o piloto de testes da Williams, Jonatan Palmer, campeão da F3 em 1981. Igualou também a marca de Keke Rosberg, piloto oficial do time e campeão da F1 em 1982. O mais importante, talvez, foi ter pressionado ainda mais a Toleman, que testava no mesmo dia com Dereck Warwick. Meses depois, no final de outubro, Senna testou o McLaren MP4C/Cosworth DFY em Silverstone, ao lado de Martin Blundle e Stefan Bellof. Depois de algumas voltas, Ron Dennis deu-lhe uma bronca por andar rápido demais...
Apesar da insistência do chefe da McLaren e de Bernie Ecclestone, da Brabham, Senna optou pela Toleman. Apesar de ser uma equipe muito fraca, o time de Alex Hawkridge daria ao brasileiro toda a atenção necessária, e ser o primeiro piloto era uma de suas principais exigências. Em outras equipes, seria apenas sombra do outro piloto, e isso definitivamente não era o que Senna queria. Sabia que em sua estréia teria que obter o melhor desempenho possível para no ano seguinte transferir-se para outra equipe melhor. Seu companheiro na estréia seria o venezuelano Johnny Cecotto, um ex-tetracampeão de motos.
Ecclestone sempre quis ter Ayrton, e não só em 84. Anos depois continuava insistindo. Há duas versões para o brasileiro não ter estreado na F-1 pela Brabham do inglês: a primeira tese afirma que a Parmalat, empresa italiana que patrocinava a equipe, exigia a presença de um piloto do país no time, e Teo Fabi foi o eleito. A outra versão diz respeito a um veto que o primeiro piloto da equipe, o brasileiro Nelson Piquet (na época bicampeão - 1981 e 1983), fez ao nome de Senna.
O campeonato começaria no Rio de Janeiro, Brasil. Pela primeira vez, Ayrton se confrontaria com os gigantes do automobilismo: Niki Lauda e Alain Prost (McLaren), Rosberg (Williams), Piquet, Michele Alboreto (Ferrari) e Nigel Mansell (Lotus), além de muitas outras feras. Mas a estréia foi frustrante. Largou em 16°, chegou à nona posição, mas o frágil motor Hart o abandonou logo na 8ª volta. Porém, na prova seguinte, em Kyalami - África do Sul - Senna já demonstraria todo o seu potencial. Largou em 13° e graças à sua aplicação no acerto do carro, terminou em sexto, marcando seu primeiro ponto na categoria. Porém, o obstinado Ayrton não se deu por satisfeito. Falou para Hawkridge: "Eu já estou pronto para o pódio. Arranje carro para isso".
Na terceira etapa, em Zolder (Bélgica), Senna novamente pontuou. Apesar de largar apenas em 19° e sofrer muito com a Toleman, terminou em sexto mais uma vez. A alegria das provas anteriores, porém, não se repetiria na corrida seguinte, em Imola, San Marino. Pela primeira vez - e única - na F-1, o brasileiro não se classificaria para a prova. Seus dois motores estouraram na sexta, e no sábado uma forte chuva caiu sobre o circuito. Senna, sem um bom tempo registrado, ficou de fora.
Dijon-Prenois, França, 5º etapa: nova quebra de motor, quando era quinto colocado. Mas em Mônaco, prova seguinte, Senna mostrou ao mundo todo o seu potencial. Sem nunca ter corrido no traçado, qualificou-se em 13º, deixando muitos pilotos já experientes para trás. Como se sabe, a prova foi disputada sobre um verdadeiro dilúvio - a chuva era tanta que foi a corrida mais lenta da F1 desde 1950. Mas isso não era problema para Senna. Após cruzarem a primeira volta, já era o 8º colocado e, sem tomar conhecimento das feras à sua frente, passou um a um. Na 14º volta, era o quarto colocado e na 16ª, ultrapassou com extrema facilidade o então bicampeão Niki Lauda, com seu poderoso Mclaren-Porsche. Aproximava-se de Alain Prost, também da Mclaren, o líder, com uma rapidez diabólica. Ao assumir a segunda colocação, na 19º volta, Ayrton estava a 34,355 segundos do francês e bastaram 10 voltas para ele colocar seu inexpressivo Toleman na cola do super carro de Prost. A ultrapassagem era questão de tempo. Foi então que o belga Jacky Ickx, ex-piloto de F1 e diretor de prova, encerrou a corrida no momento em que Ayrton buscava o vácuo do francês. Alegando motivos de segurança - decisão extremamente discutível - Ickx antecipou o final da prova e com isso Senna viu sua chance de vitória ir por água a baixo - literalmente. Mas o fato é que o mundo viu quem era aquele garoto de capacete amarelo e do que ele seria capaz de fazer. Senna fez duas declarações muito interessantes a respeito deste episódio: "O que se poderia esperar? Afinal, este é o circo em que estamos. Eles não iriam deixar a Toleman e eu batê-los, logo em Mônaco". "Talvez tivesse tomado a liderança e batido cinco voltas depois e acabasse com nada, mas creio que teríamos ganho. Pensando melhor, penso que talvez tenhamos conseguido mais publicidade desta forma do que se tivesse ganho. Foi fantástico". Algo a ser dito também é o fato que a essa interrupção custou a Prost o título da temporada de 1984. Como a prova foi interrompida antes de completados dois terços, contabilizaram-se apenas metade do pontos. Prost, então, levou 4,5 ante os 9 da vitória que conquistaria caso a prova tivesse sido disputada até seu real término. Caso Senna o tivesse ultrapassado e ele terminasse em segundo, na hipótese de a prova não ter sido interrompida, o francês levaria 6 pontos e não teria perdido o título de 1984 para Lauda por apenas meio ponto na última prova...
Em Montreal (6ª etapa), o brasileiro travou com o leão Nigel Mansell (Lotus) a primeira de muitas batalhas memoráveis. No final, o inglês levou a melhor e faturou a sexta posição, deixando Senna em sétimo. O travado circuito de Detroit, EUA (8ª etapa), veria novamente a aplicação técnica de Senna. Achou um acerto bom para o carro e largou em sétimo. Era quarto, mas se envolveu em um acidente com retardatários e abandonou. Em Dallas, EUA (9ª etapa), largou em 6° e iria ao pódio se a embreagem da Toleman não o deixasse na mão.
A décima prova da temporada - Inglaterra, em Brands Hatch - foi especial para o brasileiro. Seu companheiro de equipe Cecotto se acidentou nos treinos e fraturou as duas pernas. Senna questionou seu papel de piloto: "Corri pensando no Johnny e entendi porque a gente está aqui". Pela primeira vez foi ao pódio, em 3°. Na etapa seguinte, Hockenheim (Alemanha), seria a vez de Ayrton sofrer um grave acidente. Desgovernou a 300 km/h, mas com extrema perícia soube segurar o carro e nada sofreu. Mas ficou o susto.
Em Zeltweg (Áustria), prova posterior, Senna abandonou. Mas começou a costurar sua ida para a Lotus. Boatos começaram a surgir e na semana seguinte, em Zandvoort, Holanda - onde também abandonou - a imprensa toda já comentava que o piloto faria teste pela Williams, Tyrell, Lotus, Brabham e McLaren. Porém, a Lotus de Peter Warr anunciava sua contratação por 3 anos. Ted Toleman - dono do time de mesmo nome - e Alex Hawkrigde não gostaram nem um pouco.
Em Monza, Itália (14ª etapa), Senna foi duramente punido pela Toleman. Furioso com o anúncio da Lotus, Hawkridge, que já acertava patrocínios para 1985 baseado nos resultados - e na permanência - de Ayrton, resolveu atingi-lo. E conseguiu. Mostrou-lhe a cláusula do contrato que o permitia substituir o piloto e chamou Pierluigi Martini para o lugar de Senna. Ayrton aceitou a punição e viu o italiano não se classificar para a prova. Sem opções e sem dinheiro, Hawkridge engoliu o orgulho e teve que chamar Senna para o restante da temporada.
Em Nurburgring, penúltima etapa, Ayrton não passou da primeira curva. Envolveu-se em um acidente logo no início do GP da Europa. Iria para Estoril, a despedida de 84, preocupado em fechar sua passagem pela Toleman com um bom resultado. Largou em terceiro, batalhou com Michele Alboreto (Ferrari) e foi ao pódio, ficando atrás apenas de Piquet (Brabham) e Prost (McLaren). E emocionou-se com a homenagem feita pelos mecânicos do time. Eles empunharam um cartaz com os dizeres: "A Toleman nunca será a mesma sem Ayrton Senna". Após um ano de duro aprendizado, estava pronto para as vitórias.
1984 - Carro: Toleman Modelo: TG184 Motor: Hart Projetista: Rory Byrne Número: 19 Companheiro: Johnny Cecotto (Venezuela)/Stefan Johanson (SUE) 2º em Mônaco 3º em Inglaterra 3º em Portugal 1 volta mais rápida 14 grandes prêmios 9º no Campeonato com 13 pontos
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