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FÓRMULA 1 1988 - McLaren: Após 16 batalhas, o tão sonhado título


"Estou muito feliz. Pela primeira vez na minha vida tenho um carro em condições para tocar para a vitória". Essa frase de Ayrton Senna definiu bem a sua ida para a McLaren em 88, uma equipe altamente profissional e campeã por três vezes nos últimos quatros anos. Estaria sob o comando do obstinado Ron Dennis - que estava atrás dele desde 83 -, num carro projetado pelo conceituado projetista John Barnard e empurrado pelo potente motor Honda. Sem dúvida, uma combinação ideal para chegar ao título, além - é claro - da categoria de Senna. Mas, para ser campeão, Ayrton teria que superar primeiro seu companheiro de equipe - o francês Alain Prost, bi campeão (85/86), extremamente técnico e habilidoso e com 4 anos de McLaren.

A primeira das 16 batalhas seria no Rio de Janeiro, Brasil. Na frente de sua torcida, não decepcionou. Marcou a pole position a frente de Nigel Mansell (Williams), Prost, Gerhard Berger (Ferrari), Nelson Piquet (Lotus), Michele Alboreto (Ferrari) e Ricardo Patrese (Williams), seus principais adversários. Porém, quando chegou ao grid, percebeu que tinha problemas no câmbio. Voltou aos boxes, trocou de carro e foi obrigado a largar em último. Era a hora do show: em nove voltas fez trezes ultrapassagens, para êxtase do público presente em Jacarepaguá. Na 11ª volta, passou 3 carros apenas na reta principal. Trinta voltas depois, já era sexto, mas recebeu a bandeira preta e foi desclassificado. Havia partido antes de o fiscal o autorizar a largar. "Confesso que tive vontade de mandar tudo a merda e não parar. Dane-se, pensei. Logo agora que eu ia me divertir", reclamou. Devido a uma demora na homologação, a penalidade foi dada no meio da prova. "Está bem que me desclassificassem, mas porque esperar tanto para isso? Olha, eu me arrisquei muito para recuperar o terreno perdido", protestou. Após a parada de Senna, o show foi de Prost. Liderou de ponta a ponta e venceu pela quinta vez no Rio.

A diferença entre a primeira fila (dominada pela McLaren) e o 3° colocado em Ímola (2ª etapa) mostrou que a temporada seria mesmo do time de Ron Dennis. Senna - o pole position - e Prost colocaram 2 segundos para Piquet, o 3°. Ficou claro que o domínio seria total da equipe. A largada, a partir daí, assumia um caráter de grande importância, pois tanto Ayrton quanto Prost sabiam que aquele que pulasse na frente rumaria à vitória. Em San Marino, o francês largou mal e Senna não teve dificuldades em vencer, apesar de novos problemas no câmbio. Alain se recuperou e terminou em segundo, a frente de Piquet, o 3°. Os brasileiros deixaram o clima pesado no pódio - não se cumprimentaram. Piquet, meses antes, questionou a sexualidade de Ayrton, provocando os jornalistas para que perguntassem a Senna porque ele não gostava de mulher. Mas Ayrton não deixou barato e respondeu: "Conheci a mulher de Piquet como mulher". Tal fato gerou uma grande inimizade e ambos nunca mais se entenderam. Nelson parecia culpar Senna pelos seus maus resultados, que surgiram justamente quando Ayrton ingressou na McLaren.

A 3ª etapa, em Mônaco, veria o fato mais controverso da temporada. Senna impôs a Prost a incrível diferença de 1,5 segundo na primeira fila e marcou a 3ª pole em 3 provas. Liderou tranqüilamente e na 67ª volta, quando tinha 58 segundos de vantagem para o francês (em segundo), rodou inexplicavelmente e bateu na curva Portier. Irritadíssimo, nem voltou para os boxes. De macacão e capacete, andou a pé até seu apartamento na Boulevard Princesa Grace, a 400 metros do local do acidente. Deu a vitória de graça a seu maior adversário - Prost -, que teve a prudência que lhe faltou na prova. No México (4ª etapa), Prost novamente deu um show de regularidade e técnica, vencendo Senna na difícil e traiçoeira pista de Hermanos Rodriguez. Ayrton, na pole position, patinou na largada e o francês pulou na frente. O brasileiro bem que tentou pressionar Alain, mas - a contragosto - obedeceu uma ordem da equipe e não atacou. Manteve-se a rotina, com Senna e Prost dominando todo o GP. Logo após o pódio, Ayrton comunicou a Ron Dennis que aquela tinha sido a última vez que aceitaria o jogo de equipe. Não se submeteria a 2ª posição se pudesse brigar pela vitória. Era o começo da guerra.

E uma bela batalha dessa guerra teve como palco Montreal, Canadá (5ª etapa). Durante as 19 primeiras voltas, Senna e Prost degladiaram-se pela ponta. O francês pulou na frente de Ayrton, o pole position. O brasileiro precisava reagir e devolver as vitórias de Prost nas etapas anteriores. A briga durou até Ayrton tomar a frente na curva L'Epingle, em uma bela manobra. Depois disso, deixou Alain para trás e venceu com tranqüilidade. "Não me conformei com o que houve no Brasil, respirei um pouco com a vitória em Ímola e não engoli o desastre de Mônaco", lembrou, valorizando a vitória no Canadá. Recuperou-se no campeonato e deixou clara sua posição na McLaren.

O travado circuito norte americano de Detroit (6ª etapa) era perfeito para a técnica de Senna. Lembrava os gloriosos tempos do kart e impunha uma vantagem assustadora para os adversários. Largou na pole, venceu Berger na largada e só foi conhecer o segundo colocado no pódio. O nome dele? Alain Prost. O mesmo que acabaria com a seqüência de poles position de Ayrton (6 em 6 provas) ao marcar o melhor tempo no grid de Paul Ricard (França), 7ª etapa. Correndo em casa, Prost bateu Senna com facilidade e deixou o companheiro na segunda posição. "Só sei que as diferenças entre mim e o Ayrton estão cada vez menores", resumiu o vencedor, tentando pressionar o brasileiro. Mas a monotonia das McLaren na primeira fila acabaria em Silverstone, Inglaterra (8ª etapa). Berger e Alboreto colocaram a Ferrari na frente e a Senna restou o 3° lugar no grid. Mas o GP foi disputado na chuva, e Ayrton não teve dificuldade em passar o austríaco e o italiano. Não deu chances nem mesmo a Mansell, que brilhou na segunda posição. O vexame da prova foi de Prost. Parou na 24ª volta, devido a sua conhecida incapacidade de pilotar na chuva. "Estava na hora de ele não terminar uma corrida. Afinal, eu dei dois presentes a ele: no Brasil e em Mônaco", disse o irônico Senna, que novamente reagia na temporada.

A vitória de Ayrton na Alemanha (9ª etapa) começou uma semana antes da prova. Foram dois dias de treinos em Hockenheim, onde ele testou tudo o que era possível da McLaren e do circuito. Sempre muito aplicado e produtivo, "decorou" a vitória. E não deu outra. Foi o pole position, largou bem, venceu com grande tranqüilidade e ainda viu o abandono de Prost. Eram 2 vitórias de Senna e 2 abandonos do francês em 2 provas. O brasileiro começava a se sobressair e Alain sentia a pressão. E a dupla da McLaren faria novamente mais uma inesquecível batalha pela vitória em Hungaroring (10ª etapa). Senna largou em primeiro enquanto Alain era apenas o 7°. Após um grande duelo com Mansell, Senna viu Prost bailar entre os adversários e encostar em seu carro. Os pilotos deram um show de técnica, e Ayrton cruzou a linha de chegada 519 milésimos a frente do francês, sem antes fazer uma ultrapassagem histórica. Foi na 48ª volta, quando Prost o passou por dentro na reta. Mas Senna não deixaria barato. Na primeira curva, poucos segundos após ser ultrapassado, deu o troco em uma manobra classificada por Ken Tyrell como a mais bela que já havia visto na F1.

Senna foi impiedoso e não deu chances nem mesmo a Alain em Spa-Francochamps (11ª etapa). Apesar de patinar na largada e deixar Prost assumir a ponta, recuperou a liderança logo na primeira curva e partiu rumo a 6ª vitória na temporada. Um grande passo rumo ao título. Até Alain reconheceu, no pódio: "Parabéns, campeão". Na verdade, foi mais uma tentativa de pressão psicológica do que um reconhecimento . Afinal, Prost sabia que era muito cedo e que, apesar da grande vantagem numérica de Senna (75 a 72 pontos, 7 vitórias a 4), ainda haviam chances. Sinceridade teve Thierry Boutsen (Benetton), um dos poucos amigos que o brasileiro teve na categoria: "Hoje a F1 tem apenas um astro: Senna". A definição do belga foi dada após seu terceiro lugar em Spa, onde foi ovacionado pelos fãs de seu país.

A essa altura, apenas o sobrenatural poderia impedir novas vitórias da McLaren. E foi o que aconteceu em Monza (12ª etapa). Senna, claro, foi o pole position, seguido por Prost e Piquet. Berger e Alboreto, a dupla da Ferrari, decepcionaram os fãs tifosi presentes no circuito. Largaram apenas nas 4ª e 5ª posição, respectivamente. Monza era a casa da equipe, e mais de 120 mil torcedores compareciam ao autódromo e praticavam uma verdadeira devoção pela Ferrari. Eram fanáticos e creditavam vitórias e derrotas à sobrenaturalidade. E aquele 11 de setembro de 1988 entrou para a história. Primeiro, Piquet abandonou a prova logo no início. Voltas depois, o confiável motor Honda da McLaren de Alain Prost explodiu pela primeira - e única - vez na temporada. Mas Monza explodiria em alegria a duas voltas do fim. Senna era o líder, com enorme vantagem para Berger (2°) e Alboreto (3°). Até mesmo o mais fiel dos tifosi estava conformado com o resultado. Mas o francês Jean-Louis Schlesser entraria para a históra da F1 - pela porta dos fundos. A menos de 20 km do fim da prova, o piloto - que substituía Mansell, doente, na Williams - colidiu com o líder Senna na primeira chicane do circuito e deixou o brasileiro fora da prova. O caminho estava livre, e Berger e Alboreto conduziram a Ferrari a uma vitória histórica e impediram a McLaren de vencer todos os GP's de 88. Mas o que levou a Lotus de Piquet a quebrar logo na 11ª volta? O que houve com o motor Honda de Prost, que teve problemas pela primeira vez em 88? E que dizer de Schlesser, um veterano de 42 anos que atrapalharia Senna e o tiraria de uma vitória certa? "Acho que alguém, lá em cima, não queria que eu vencesse hoje", falou Ayrton em tom de profecia. Mas para os 120 mil tifosi presentes em Monza havia uma explicação. Foi Enzo Ferrari, patrono da equipe, morto um mês antes da prova, que provocou o acidente de Senna e a única vitória do time na fraca campanha de 88. Quase um milagre. Afinal, só isso pôde explicar como a Ferrari bateu as invencíveis McLaren e compôs uma dobradinha histórica. A melhor definição talvez tenha sido de Clay Regazzoni, piloto da equipe na década de 70: "Eu sei que essa façanha não vai diminuir a saudade do grande capo. Mas tenho certeza que o comendador Enzo por certo esteve nos olhando nesta tarde".

Na 13ª etapa, em Estoril (Portugal), a McLaren voltou a vencer, mas desta vez com Prost. Senna largou em segundo, chegou a passar o francês mas o desempenho de seu carro caiu repentinamente e ele foi apenas o 6°. Foi ultrapassado por Ivan Capelli (March) e Berger com estranha facilidade e apenas endureceu com Mansell. Eles bateram e Senna viu de longe Alain ser perfeito. Como em Jerez de la Frontera (14ª etapa). Ayrton se esforçou muito para obter a pole position enquanto o francês procurou trabalhar o carro para a prova. Novamente, a McLaren de Senna apresentou problemas e ele teve que se contentar com a 4ª posição. Mas ainda tinha vantagem sobre Alain: precisava de apenas uma vitória nas duas etapas seguintes (Suzuka e Adelaide) para ser campeão. A única chance de Prost era vencer as duas provas.

"Esta corrida vai passar para a história". Palavra de Ayrton Senna, após sua inesquecível e espetacular atuação no GP do Japão, em 30 de outubro de 1988. Ele próprio afirmava que foi sua melhor prova na F1 - melhor até que no Brasil em 1991. Nos treinos, Ayrton bateu Prost, que ficou em segundo. Mas na largada o inesperado aconteceu. Uma falha na embreagem fez com que o motor da McLaren não engatasse. 15 carros o ultrapassaram e ele teve que se aproveitar da descida onde fica a reta dos boxes para fazer o Honda funcionar. "O motor morreu e eu o fiz pegar no tranco. Apagou pela segunda vez e voltou, graças a Deus, a girar depois do segundo tranco". Possuído, Senna fez a primeira curva em 14°, mas cruzou a primeira volta já em 8°. Não escolhia pontos de ultrapassagem. Um a um, foi vencendo seus adversários de forma impressionante. Lembrava os mitos Juan Manuel Fangio, Jim Clark, Graham Hill, Jackie Stewart e outros ases da F1. Na 11ª volta, era 3° e, 9 giros depois, encostou em Prost, o líder. Na 29ª volta, em plena reta dos boxes, deixou Alain para trás. Sentiu que era seu momento. Conduziu, apreensivo e nervoso, a McLaren MP4 n° 12, motor Honda, à vitória mais importante de sua carreira. Na reta de chegada, em transe, viu Jesus Cristo e coroou a brilhante carreira, que começou com um inocente kart, passou pela temeridade da Fórmula Ford, pelo duro aprendizado da F3, por todas as dificuldade e limitações de Toleman e Lotus e chegava a consagração. Ayrton Senna da Silva era, aos 28 anos, campeão mundial de Fórmula 1.

Foi a temporada de ouro da McLaren e, a partir daí, a F1 começaria a se despedir das disputas emocionantes. Entraria em uma nova era, com apenas uma equipe dominando as ações. McLaren, Williams, Benetton e Ferrari monopolizaram as vitórias por mais de uma década. E tudo começou com o magnífico projeto de John Barnard, Neil Oatley, Steve Nichols e de toda a ambição de Ron Dennis e do perfeccionismo dos japoneses da Honda. Se não fosse o acidente com Senna e Schleeser, em Monza, todas as 16 etapas teriam sido vencidas pela dupla Ayrton Senna/Alain Prost. E bateram dois recordes que equipe marcou em 1984: o de vitórias (15) e de voltas na liderança (992). Se não fosse as 25 voltas de Berger e uma de Capelli (em Suzuka), teriam liderado todas as voltas dos 16 GP's. Isso sem contar as 10 dobradinhas e as 12 primeiras filas.

O ponto final da temporada 1988 foi em Adelaide, Austrália. Ron Dennis exigiu a vitória para todos os membros do time e Prost e Senna fecharam o ano com nova dobradinha. Apesar de Berger ultrapassar a dupla, o austríaco se acidentou e deixou o caminho livre para o francês Alain Prost, de 33 anos, vencer a última etapa do ano. Em segundo, chegou o brasileiro Ayrton Senna, 28 anos, que foi o verdadeiro dono da festa. Era o novo rei da F1. Bateu o magnífico companheiro Prost e estabeleceu dois recordes que não deixaram dúvidas a respeito de seu primeiro título: de vitórias (8, em 16 provas) e de pontos (90, em 99 válidos). Todos sabiam o nome do novo dono do trono da F1: Ayrton Senna.

1988 - Mclaren/Honda
8 Vitórias em São Marino, Canadá, Estados Unidos, Inglaterra, Alemanha, Hungria, Bélgica e Japão
3 segundos lugares no México, França e Austrália
12 Poles Positions
3 Voltas mais Rápidas
16 Grandes Prémios
Campeão do Mundo com 90 pontos

 

 
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