FÓRMULA 1 1990 - McLaren: O troco Ayrton havia afirmado que a FIA havia interferido na decisão da temporada de 1989, e era isso que Jean Marie Balestre, presidente da entidade, alegava para exigir de Senna - além de uma multa de 100 mil dólares - um pedido formal de desculpas. Em fevereiro de 90, após uma batalha de egos inédita no automobilismo, o imbróglio teve seu fim. O francês havia divulgado a relação de pilotos para a temporada, e o nome de Senna não constava. Era o último dia para o brasileiro se retratar, e o fez através de um fax. Cedeu às fortes pressões do trio Honda/Mclaren/Philip Morris e, enfim, engoliu o orgulho. Reconheceu que a FIA na interferiu no resultado de 89 e viu Balestre, arrogante e prepotente, vencer a "batalha". Mas Ayrton era, antes de tudo, uma pessoa que guardava mágoas, e a essa altura já preparava a sua revanche. E também sabia que todos os seus fãs e torcedores não acreditavam no conteúdo do tal fax.
Nas pistas, o campeonato começou com muitas novidades nas equipes. Gerhard Berger era o novo companheiro de Ayrton e Alain Prost foi dividir as atenções da Ferrari com Nigel Mansell. Já Nelson Piquet havia se transferido para a Benetton. No primeiro GP do ano, a grande surpresa foi o francês estreante Jean Alesi (Tyrell). Segundo na largada, não tomou conhecimento do pole Berger e liderou metade da prova. Senna, apenas o quinto no grid, não teve muitas dificuldades para chegar no líder. Tentou a ultrapassagem, percebendo a fragilidade do equipamento de Alesi, mas o astucioso francês deu um "X" histórico no brasileiro. Como a Mclaren estava bem melhor que a Tyrell, Ayrton foi mais precavido, ultrapassando Alesi na volta seguinte e vencendo com facilidade. No pódio, não pôde resistir e deu um belo banho de champangne em Balestre.
A F1, após quase 10 anos no Rio de Janeiro, voltaria a São Paulo para realizar o GP do Brasil. Novamente o palco era Interlagos, agora em um moderno e remodelado traçado. Seu tamanho foi reduzido de 7,96 km para 4,35 e, graças a insistência da prefeita Luiza Erundina e do administrador do autódromo, Chico Rosa, Bernie Ecclestone não hesitou em aceitar o regresso. Para atender aos novos tempos da F1, mais veloz e sempre buscando maior segurança, o traçado sofreu uma grande mudança, e o maravilhoso e desafiador circuito virou apenas mais um no calendário - infelizmente. O público paulistano recebeu muito bem as estrelas da F1, e não faltaram alusões à origem nazista de Balestre e outras "brincadeiras" por parte do público em relação ao dirigente. O francês chegou ao ponto de exigir do recém-empossado presidente Fernando Collor que garantisse pessoalmente toda a assistência necessária a todos da F1, numa clara alusão aos problemas econômicos que o país enfrentava - como se isso fosse de sua responsabilidade. Já para Senna, vontade não faltava para vencer no Brasil e agradecer a sua torcida todo o apoio nos momentos difíceis dos meses anteriores. Porém, mais uma vez, Prost riria por último. O brasileiro largou na pole e liderou com facilidade até a 33ª volta, quando encontrou o retardatário Satoru Nakajima (Tyrell). Ao tentar a ultrapassagem no Bico de Pato, Senna acabou confundindo Nakajima, que se atrapalhou e bateu no brasileiro. Resultado: bico danificado, parada extra nos boxes e apenas o terceiro lugar no final da corrida. O vencedor, Alain Prost... Collor (que entregaria os troféus no pódio), mais um brasileiro ansioso por ver a vitória de Senna, disse, ao saber do resultado final: "não vou entregar troféu nenhum para o Prost!". Embora o resultado tenha ficado muito longe do ideal, Senna havia recuperado a motivação: "Foi o entusiasmo da torcida de Interlagos que me fez reencontra o gosto, o sabor de lutar pela vitória. E aí eu me reencontrei novamente e peguei o fio da meada que tinha deixado em 89 e fui em frente".
Em Ímola (2ª etapa), Ayrton não passou da 3ª volta, vítima de um problema mecânico na Mclaren. Na corrida seguinte, em Mônaco, não teve dificuldades e impôs outra grande vitória, chegando a mais de 1 minuto na frente de Alesi, o segundo. Prost, apenas o 4º em San Marino, bateu logo na largada com Berger. Em Montreal (4ª etapa), o show foi do austríaco, que só não venceu pois queimou a largada. Liderou de ponta a ponta, mas foi penalizado por 1 minuto e perdeu muitas posições. Sob muita chuva, Senna sob manter a calma e ficou cauteloso atrás de Berger. No fim, herdou a vitória e teve Nelson Piquet ao seu lado no pódio, para outra dobradinha brasileira na F1.
Alain Prost teve uma brilhante atuação no México (5ª etapa). Largou apenas em 13º e teve uma de suas melhores exibições a bordo da Ferrari. Venceu e voltou a sonhar com o título. Após um pneu furado, Senna (que era o líder) abandonou e muito descontente viu a vitória francesa. Vitória essa repetida em casa - Paul Ricard. Apesar do excelente desempenho dos March projetados por Adrian Newey e pilotados por Ivan Capelli e Maurício Gugelmin, mais uma vez a sorte esteve do lado de Prost. Após liderarem por quase toda a segunda metade da prova, os carros da March começaram a apresentar problemas. Gugelmin, o 2º colocado, abandonou com o motor estourado. A duas voltas do fim, quando Capelli rumava à uma vitória histórica, seu motor também começou a ratear. Prost pisou fundo e passou o italiano a uma volta do término. Senna bem que tentou, mas fechou em terceiro. "Não mordi o volante porque estava de capacete", disse. Em Silverstone, na Inglaterra, Ayrton e Mansell forçaram demais seus carros e viram uma nova vitória do tranqüilo Alain. Senna ainda chegou em terceiro, literalmente arrastando sua Mclaren. Boutsen foi o segundo.
O brasileiro venceu com superioridade na Alemanha, em Hockenheim. Foi pole, igualou o número de vitórias de Juan Manuel Fangio e voltou à liderança do campeonato. Um grande alento frente aos desastres das últimas etapas. Já em Hungaroring, um pneu furado e a ótima performance de Boutsen relegaram Senna a um razoável segundo lugar, principalmente após as suadas ultrapassagens sobre Alesi, Alessando Nanini (Benetton), Piquet e Ricardo Patrese (Williams). Em Spa, apesar de um certo assédio de Prost, Ayrton fez uma vitória tranqüila, acompanhado de mais uma pole no seu circuito preferido. Mas teve que largar 3 vezes, devido a acidentes nas largadas. Como respostas às provocações dos tifosi, Senna marcou a pole, fez a melhor volta, venceu e deu um banho em Prost na prova de Monza, Itália. Na coletiva de imprensa, incitados por um jornalista italiano, Ayrton e Alain cumprimentaram-se, com o brasileiro um pouco constrangido. Afinal, ele sabia que aquelas pazes e promessas de trégua não iriam durar muito.
Mansell voltou a dominar uma prova em Estoril, Portugal. Castigou Senna e Prost e venceu novamente, desta vez com muita alegria, pois deixara o desafeto francês mais longe ainda do título. O leão já havia decidido deixar a Ferrari e soltou fogo contra Prost, que se sobressaiu sobre o inglês durante todo o ano. Em Jerez de la Fronteira, na última prova européia do ano, Senna recebeu um duro golpe - o grave acidente de Martin Donnelly (Lotus) nos treinos abalaram Ayrton. Fechou-se no motorhome e se recuperou mentalmente para fazer uma grande pole, em um circuito onde reconhecidamente as Ferraris eram melhores. Na prova, porém, sua McLaren superaqueceu e teve que abandonar, dando a vitória de presente a Prost - que teve a ajuda de um contrariado Mansell, que abriu mão da primeira posição em nome das chances de título do francês. Pelo terceiro ano seguido, lá iam Ayrton Senna e Alain Prost decidir quem era o campeão da F1 em 1990. Agora era Prost quem precisava das vitórias no Japão e Austrália. Senna apenas precisava impedir pelo menos uma dessas conquistas do francês. Porém, antes da prova começar, estava tudo decidido.
Na quarta-feira anterior a prova, os pilotos, inclusive Prost, reinvidicaram junto a FIA a mudança do local da pole. Em vez de partir do lado direito (mais sujo), eles queriam que o pole saísse do lado esquerdo, onde teria a vantagem merecida de largar na parte mais aderente da pista. A direção da prova acatou a sugestão (assim como aconteceu em Estoril), mas Balestre manteve sua vontade e o pole partiria da direita. Ayrton a marcou, com quase um segundo para Prost, o 2º. No briefing, Senna voltou a tocar no assunto, mas foi ignorado por Balestre. Além disso, os comissários afirmaram que puniriam severamente os pilotos que pisassem a linha tracejada na chicane onde houve a confusão entre Ayrton e Prost no ano anterior. Ou seja, as possibilidades de ultrapassagem no local estavam praticamente reduzidas, e lá era o principal ponto do circuito para qualquer manobra desse tipo. Apenas na largada as chances eram maiores, e lá Senna partiria do lado errado, dando a possibilidade de Prost arrancar rumo à vitória. Essas posições da FIA e da direção da prova deixaram Senna muito revoltado e, com certeza, isso pode ter contribuído para o que viria a seguir.
Ao acender da luz verde, Prost, do melhor lado, pulou na frente. Senna patinou e perdeu a liderança para o francês. Ao final da reta de largada, Alain trouxe a Ferrari para a tangência da curva e Ayrton, atrás, não hesitou em atropelar a traseira do carro do francês. Ambos partiram reto na caixa de brita, e o título mundial já estava decidido a favor de Ayrton Senna. Foi, novamente, uma situação extremamente controversa. Obviamente Senna poderia ter reduzido a velocidade e se resignado a dar a liderança para Alain, que realmente estava em vantagem na primeira curva. O fato é que Ayrton não havia esquecido todas as sacanagens anteriores. Além disso, ele foi uma pessoa que guardava mágoas, e isso era imperdoável para um campeão de sua estirpe. Foi um título melancólico e, com certeza, a F1 mereceria uma decisão melhor.
A prova seguiu, e a festa foi mais brasileira do que nunca. Piquet venceu, e seu amigo Roberto Moreno, que substitui Nanini na Benetton, foi o 2º. Na coletiva de imprensa, Senna falou: "Dedico a minha vitória no Campeonato Mundial a todos que me combateram. Eles me fizeram muito mal. Para eles, esta é a demonstração de quem é o verdadeiro campeão mundial". Prost, questionado, disse: "pensava que Ayrton fosse um piloto correto. É preciso fazer alguma coisa nos regulamentos para que isso não se repita. Assim, realmente não estou interessado em continuar".
No último GP do ano, Piquet venceu aquela que era a 500ª corrida da F1. Senna teve problemas no câmbio e abandonou. A respeito das confusões, a Ferrari esperneou, ameaçou abandonar a categoria, Prost reclamou (como sempre), mas não havia para a FIA como voltar atrás. Senna estava satisfeito. Afinal, o troco estava dado.
1990 - McLaren/Honda 6 Vitórias nos Estados Unidos, Mônaco, Canadá, Alemanha, Bélgica e Itália 2 segundos lugares na Hungria e Portugal 3 terceiros lugares no Brasil, França e Inglaterra 10 Poles Positions 2 Voltas mais Rápidas 16 Grandes Prémios Campeão do Mundo pela segunda vez com 78 pontos
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