O descobrimento do Brasil em 1991 Continuando nossa homenagem ao Ayrton, depois da crônica da semana anterior, um desabafo pessoal e uma homenagem poética, gostaria nesta semana que vocês imaginassem a seguinte situação:
Imaginem vocês, que estão habituados a dirigir, (o que não é o meu caso, pois mesmo amando automobilismo, é algo que me estressa) a situação de dirigir um carro com apenas a 6ª marcha. Agora, não vou pedir que vocês imaginem tão sacrifício, mas apenas conto que na posição de estar num carro de Fórmula 1, numa pista como Interlagos e em uma corrida no país onde você nasceu, em que há trechos que a redução de marcha vai da 5ª para a 2ª numa fração de segundos, reduzir os possíveis 200 ou 300 km/h até 80, controlando não apenas o carro, mais o próprio corpo e até a mente, certamente é um feito, mas um feito que talvez falte adjetivo para colocar.
Talvez vocês mesmos possam me ajudar: um feito histórico? Um feito memorável? Incrível? Sobre-humano? Fora de série?
Alguns deram adjetivos como falso, mentiroso, cascata, em virtude de algo tão estranho ter sido relatado. Como um piloto numa corrida com todas essas circunstâncias poderia completar algumas voltas com apenas uma marcha no câmbio? E mais, em condições de pista úmida?
Não, vocês que estão lendo já devem ter se cansado só de ter que imaginar estar dirigindo, ainda mais só com a 6ª marcha. Tantos fatores a mais assim seria muito. Foi assim o lendário GP do Brasil de 1991 na vida de Senna.
Mas como eu mesmo disse algumas linhas antes, adjetivos adversos foram dados: Piquet, por exemplo, achou cascata, dizendo que é impossível dar uma volta em 1m25s nessas condições de carro e de pista. Quem tem a corrida gravada pode reparar que começou a garoar no final da prova. Senna começou a perder as marchas progressivamente quando restavam vinte voltas para a bandeirada. Segundo relatos de textos antigos, primeiro a quarta, depois segunda, quinta, até que, a 8 voltas do fim percebeu que podia contar apenas com a sexta.
Perto de 20 voltas para o final, Mansell, com sua Williams do outro planeta, que já começava a ser o carro do ano com sua parafernália eletrônica, aproxima-se de Senna, mas roda na pista e, ao tentar endireitar seu carro, destrói o cambio e abandona a prova.
O problema ainda era a outra Williams, a de Patrese, que assume a 2ª colocação. Em condições normais, um Patrese não assustaria Senna estando 40 segundos atrás. Acontece que faltando 8 voltas para o final Patrese reduz 7 segundos e assim vai acontecendo até instantes finais da corrida. Nunca se viu nada igual em uma corrida no Brasil. Eu não era torcedor fanático de Ayrton, mas confesso que os dois momentos de maior apreensão e emoção que presenciei de Senna foi o dia de sua perda, em 1994, e o dia de sua vitória no Brasil, em 1991, nesses instantes finais. Galvão Bueno, na época desesperado, imaginava que Senna estivesse sem pneus, e ninguém (nem eu) percebeu na câmera on board que ele não mais cambiava, como podia ser notado.
Aqueles 40 segundos de vantagem de poucas voltas atrás já eram 12, 8, 5 segundos no decorrer das 3 últimas voltas, e juntando todas as dificuldades que Senna estava tendo, a garoa estava mais fina, a pista mais escorregadia e ele já gesticulava nas últimas voltas para que a corrida terminasse. A garoa e a pista lisa fizeram com que em uma das últimas voltas, Patrese reduzisse a diferença em apenas 1 segundo, ao invés dos habituais 5 que vinha tirando pelo menos, em uma volta onde Senna também tirou um pouco da alma que tinha. Tempos depois, a Williams, e mesmo o chefe Frank, comentou que achara que Senna estava administrando a vantagem e considerou por rádio para que Patrese administrasse também em função das condições da pista, sem sequer imaginar que Senna teria algum problema. Se imaginasse, dificilmente nosso brasileiro venceria.
Senna aponta na reta dos boxes a 3 segundos de Patrese, e esses dias, no trecho que passou sobre ele nos 30 anos do Globo Repórter, é focada bem de frente a imagem do diretor da prova erguendo a bandeira quadriculada na espera da vitória, justamente na corrida daquele dia. As mãos de todos os torcedores em Interlagos parece que poderiam ser vistas pro alto como nunca se viu na vitória de um piloto em meio a tanta vibração.
Senna, aos berros em seu cockpit, contrasta tudo: dor, alegria, choro e arrepia certamente qualquer pessoa que estava, não só em Interlagos naquele dia, mas qualquer um que estava vendo a corrida na frente da TV.
Ele descobre o Brasil. A vitória entra pra história como, segundo o próprio Senna, "algo comparado ao primeiro título em 88 no Japão". Senna só consegue ir ao podium depois que é levado pelo carro madrinha, pois mal conseguiu fazer a volta da vitória. Mal conseguia caminhar direito.
No podium, tem dificuldades em erguer o troféu, mas o levanta repentinamente e mostra que ali entrara pra história talvez a mais importante vitória de sua vida.
Abraços a todos Guilherme Henrique Salviano
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